A Saúde Visual após a Cirurgia às Cataratas
A cirurgia à catarata não é o final do ciclo na sua saúde visual! Antes, pelo contrário, é uma nova etapa que requer cuidados visuais ainda mais específicos.
Ao longo das mais de duas décadas de prática clínica da optometria, tenho vindo a deparar-me com um equívoco que me preocupa: Depois da cirurgia à catarata não há mais nada a fazer ou esperar da saúde visual!
Habitualmente, e após a consulta oftalmológica pós cirurgia à catarata, os pacientes têm “ alta” hospitalar, quebrando-se a ligação ao serviço de oftalmologia. Verifico que vários pacientes percepcionam, interpretando a informação pouco clara ou insuficiente, que lhes é transmitido que não necessitam de mais cuidados de saúde visual ou que nunca mais vão precisar de ajudas ópticas: “ A minha graduação não vai mudar mais e já não preciso de óculos!”. Outros, por recomendação errada, vão comprar óculos pré-graduados para “usar na leitura.”.
O resultado é o mesmo: deixam de ir à óptica, deixam o seu oculista, e abandonam o acompanhamento do optometrista. Quebra-se uma ligação que, em alguns casos, durou toda uma vida e noutros toda a idade adulta (após presbiopia). Esta é uma percepção errada e preocupante. Os cuidados de saúde devem manter-se após a cirurgia à catarata, mesmo nas pessoas que têm uma acuidade visual de 100%.
De facto, existe evidência científica, que apesar da maioria dos pacientes atingirem bons resultados a nível da acuidade visual, 10% a 40% poderão apresentar diminuição da visão. (Han et al., 2022; Yong et al., 2022; Barañano et al., 2008; Powe et al., 1994; Asmare et al., 2024).
As principais causas desta diminuição da acuidade visual estão bem identificadas. Em primeiro lugar, destaca-se o erro refrativo não corrigido, nomeadamente a ausência de óculos ou óculos inadequados. Seguem-se as condições pré existentes ou o desenvolvimento de novas patologias, particularmente as doenças oculares relacionadas com o envelhecimento, como a Degenerescência macular relacionada com a idade (DMI); as retinopatias e o olho seco, alterações muito prevalentes na faixa etária dos indivíduos submetidos a cirurgia à catarata. Em terceiro lugar, surgem as complicações pós-cirúrgicas, nomeadamente as Cataratas secundárias, que se manifestam geralmente de forma tardia, com uma prevalência estimada entre 12% e 20 % dos casos. Por fim, destacam-se as causas neuro oftalmológicas, como os estrabismos descompensados, frequentemente associados a queixas de visão dupla (diplopia). (Han et al., 2022; Powe et al., 1994; Zhao et al., 2025; Sa’at et al., 2022).
Relativamente à primeira causa, a solução passa, naturalmente, pelo uso de óculos- lentes oftálmicas e/ ou lentes de contacto, que permitem compensar o erro refrativo que não foi corrigido com a lente intraocular. Neste contexto, é importante desmistificar a ideia de que “só é necessário corrigir a visão próxima” e de que basta adquirir óculos de “leitura pré-graduados” na farmácia ou até à “loja de conveniência”. Não é assim!
Para garantir uma visão precisa, confortável e adequada às necessidade individuais, é essencial encontrar uma solução feita à medida, baseada numa avaliação realizada pelo(a) Optometrista, que constitui o caminho mais adequado para resolver a diminuição da acuidade visual nestes casos.
Importa ainda salientar que uma boa correção visual é fundamental, mesmo quando a graduação residual é considerada “pequena” e, por vezes, desvalorizada. Quando a pessoa está bem corrigida, torna-se naturalmente mais atenta a pequenas alterações da visão, o que permite uma identificação mais precoce de eventuais alterações visuais.
Manter o uso de lentes de adição progressiva (LAP), quando já utilizadas antes da cirurgia, continuar a ser uma opção fundamental, pois são a garantia de uma visão nítida, simples e adequada para as tarefas do dia a dia. Note-se que cerca de um terço dos usuários de lentes oftálmicas usam LAP, sendo esta percentagem mais elevada na população acima dos 45 anos de idade.
A prevenção é essencial em saúde e saúde visual não é excepção. A vigilância da saúde visual assume particular relevância com o aumento da idade por exemplo na detecção atempada e prevenção de patologias como a degenerescência macular relacionada com a idade (DMI), uma das principais causas de perda visual na população mais envelhecida e que pode ser prevenida.
Outra condição importante relevante nesta faixa etária é o olho seco. De acordo com o relatório TFOS DEWS II, esta patologia afeta entre 10% e 30% da população adulta, em diferentes graus de severidade. A cirurgia à catarata está associada a um aumento do risco de desenvolvimento ou agravamento do olho seco, existindo estudos que referem um aumento de 37% da incidência em pacientes sem doença prévia. (Miura et al., 2022). Esta condição tem um grande impacto na qualidade de vida, sendo fundamental um acompanhamento adequado, bem como a implementação da terapêutica adequada, de forma a reduzir os sintomas e melhorar o conforto visual e funcional dos pacientes.
Embora a maioria dos pacientes obtenha bons resultados em termos de acuidade visual, é importante considerar que as exigências visuais atuais são cada vez maiores. Acresce que a população submetida à cirurgia de catarata — maioritariamente pessoas com mais de 70 anos, cuja idade média se situa entre os 72 e os 75 anos (Lundström et al., 2020) — tende a manter os seus hábitos visuais. O uso frequente de ecrãs, seja em dispositivos móveis ou na televisão, aumenta a necessidade de filtros adequados e de uma boa visão binocular. Do mesmo modo, as atividades ao ar livre exigem proteção ocular apropriada. Neste contexto, torna-se essencial o recurso a dispositivos ópticos adequados, como óculos, lentes progressivas, lentes ocupacionais e filtros solares, devidamente ajustados às necessidades visuais desta população e à realidade atual.
Termino como comecei, enfatizando que a cirurgia à catarata não representa o fim do ciclo na sua saúde visual! Pelo contrário, trata-se de uma nova etapa, que exige cuidados visuais ainda mais específicos e personalizados. No OCCP, encontrará uma equipa de profissionais qualificados, com destaque para os optometristas e técnicos de óptica ocular, com as competências necessárias para ajudar a encontrar a melhor solução para cada caso.
Preservar a visão é fundamental para prolongarmos a vida com qualidade. Visite regularmente o seu optometrista.
Eduardo Teixeira
Optometrista Clínico
Registo Autónomo ERS 27715
APLO nº 102
REFERÊNCIAS
Han, X., Liu, Z., Tan, X., Jin, G., He, M., Luo, L., & Liu, Y. (2022). Real-world visual outcomes of cataract surgery based on population-based studies: a systematic review. The British Journal of Ophthalmology, 107, 1056 – 1065. https://doi.org/10.1136/bjophthalmol-2021-320997
Yong, G., Mohamed-Noor, J., Salowi, M., Adnan, T., & Zahari, M. (2022). Risk factors affecting cataract surgery outcome: The Malaysian cataract surgery registry. PLoS ONE, 17. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0274939
Barañano, A., Wu, J., Mazhar, K., Azen, S., & Varma, R. (2008). Visual acuity outcomes after cataract extraction in adult latinos. The Los Angeles Latino Eye Study.. Ophthalmology, 115 5, 815-21. https://doi.org/10.1016/j.ophtha.2007.05.052
Powe, N., Schein, O., Gieser, S., Tielsch, J., Luthra, R., Javitt, J., Javitt, J., & Steinberg, E. (1994). Synthesis of the literature on visual acuity and complications following cataract extraction with intraocular lens implantation. Cataract Patient Outcome Research Team.. Archives of ophthalmology, 112 2, 239-52. https://doi.org/10.1001/archopht.1994.01090140115033
Asmare, Z., Seifu, B., Fente, B., Negussie, Y., Asebe, H., Bezie, M., Melkam, M., & Asnake, A. (2024). Through the fog: Systematic review and meta-analysis of the prevalence and associated factors of poor post-operative visual outcome of cataract surgery in Sub-Saharan Africa. PLOS ONE, 19. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0315263
Miura, M., Inomata, T., Nakamura, M., Sung, J., Nagino, K., Midorikawa-Inomata, A., Zhu, J., Fujimoto, K., Okumura, Y., Fujio, K., Hirosawa, K., Akasaki, Y., Kuwahara, M., Eguchi, A., Shokirova, H., & Murakami, A. (2022). Prevalence and Characteristics of Dry Eye Disease After Cataract Surgery: A Systematic Review and Meta-Analysis. Ophthalmology and Therapy, 11, 1309 – 1332. https://doi.org/10.1007/s40123-022-00513-y
Lundström, M., Dickman, M., Henry, Y., Manning, S., Rosen, P., Tassignon, M., Young, D., Behndig, A., & Stenevi, U. (2020). Changing practice patterns in European cataract surgery as reflected in the European Registry of Quality Outcomes for Cataract and Refractive Surgery 2008-2017.. Journal of Cataract & Refractive Surgery. https://doi.org/10.1097/j.jcrs.0000000000000457
Miura, M., Inomata, T., Nakamura, M., Sung, J., Nagino, K., Midorikawa-Inomata, A., Zhu, J., Fujimoto, K., Okumura, Y., Fujio, K., Hirosawa, K., Akasaki, Y., Kuwahara, M., Eguchi, A., Shokirova, H., & Murakami, A. (2022). Prevalence and Characteristics of Dry Eye Disease After Cataract Surgery: A Systematic Review and Meta-Analysis. Ophthalmology and Therapy, 11, 1309 – 1332. https://doi.org/10.1007/s40123-022-00513-y


